onde encontrarás uma, encontrarás todas: esse é um vídeo que estava para publicar já faz um tempo. por alguns motivos veio atrasado, mas veio bonito — com poucos detalhes que poderiam ser melhorados, mas a gente vai aprendendo.

há alguns meses assisti Midsommar, de Ari Aster, e durante algumas cenas me veio à cabeça, automaticamente, um poema da Marceli Andresa Becker. logo quis trazer de alguma forma esse diálogo, essa intersemiose. juntei umas cenas do filme e intercalei com a música Mboitatá, de Arina Burcéva, que traz uma interpretação da lenda brasileira Boitatá, uma serpente que cospe fogo.

o vídeo…


eu e minha amiga Dryelle Albuquerque (@dryhelll) nos juntamos para criar esse vídeo bonito e sensível. são três poemas meus recitados por ela mesma. as imagens do vídeo também são dela. a música de fundo é de Badi Assad (@badiassad), instrumentista/musicista brasileira. são poemas antigos mas que resgatam o sentimento de nós todos durante essa nova rotina, essa nova vivência. poemas que querem gritar ao mesmo tempo em que se silenciam. ou que soam como um sussurro ao pé do ouvido.

DEUS DIFUSO

o tempo é este deus difuso que traz
e leva, apascenta, cura, cicatriza
o tempo sopra forte nos…


captura de beatryz, minha irmã de pele e luta.

sobrevoa um desejo profano
acima do bater contínuo:
correr sem tempo de fôlego
estradas compostas de ares
há um murmurinho de suspiros
se rastejando nas frestas da alcova
se amontoam e se formam espectros
já não sei: me entristece
me aborrece e eu corro

fui igualmente jogado nesse inferno
não me assustam as tuas guerras
o fogarel que te compõe
os teus gritos que denotam poder
os teus assassinatos
por força faço tudo isso
mas está escrito:
eu corro — por medo, tu pergunta?
não, não
a minha estadia é errônea
o meu lugar nunca foi nenhum desses


foto: yuri rodrigues

há muito da gente para ser

se existe um monumento fixo
é porque ele não existe
caminhamos demais através das andorinhas
e o que aprendemos, então
foi tudo o que sabíamos
mas tudo o que não praticávamos

as degradações ferirão nossos tímpanos
e taparão nossas gargalhadas andantes
dirão que as coisas são do jeito que são
e subiremos um no outro para inventarmos
místicas cores, mitos, voares novos
comporemos novas valsas
e vestiremos o manto dos pombos
procuraremos os vestígios da liberdade
do mundo, do vento, da brisa
que se distanciou da maré
dentre os passos dos prisioneiros
dentre essas esquinas mesmas

há muita palavra para gritar
e muito da gente para ser
o que sobrou em nossa carne
há tanto tempo ainda
para se pensar no tempo
e beijar o tempo
e sorrir com o tempo
ser ele mesmo…


I

deveria existir uma palavra
uma única palavra de verbo e pedra:
espiritualizada, demoniada, preenchida
de toda a matéria do mundo
para definir o poema: esta divindade sangrenta
esta catarata de sílabas

deveria existir uma palavra, somente uma
grandiosa, poderosa
que distinguisse o homem comum do poeta
este ser perturbado por imagens
dalguma dimensão alta, feita de água e espuma [líquida]

então eu me questiono por quê
por que fui atingido pelo tangente feitiço da palavra:
serei eu um cúmplice do demônio
rastejando-me por qualquer beco de grito
suja foda, fome?
ou um ser de luz na costura do mundo?
um ser de deus, água e…


fotografia por renan benedito

os dias tornam-se infinitamente cíclicos, trágicos
os bichos de estimação de minha avó continuam, todas as noites nas horas letárgicas, numa posição fetal esperando por ela
os dias, infinitamente circulares no cotidiano dos ônibus pela urbanização ensanguentada de nossa sociedade
eles continuam, todos os dias, nesse mesmo movimento circunférico pelas avenidas da cidade
e os meninos intrinsecamente espiralados pelas correntes do dia a dia
vendem suas bugigangas seus adereços
o disfarce da fome das mulheres vindas dos grandes apartamentos
dos homens das obras inacabadas de algum engenheiro bem-sucedido
na torrente de sol infinita de todos os dias os meninos vendendo sua vida a sua fome
com os olhos esfumaçados…


ilustração de Violeta Lópiz

eram riachos e arabescos serpenteando nos dias
me visitavam flores atávicas para lá das constelações
e diziam, noturnas, os deslizes destecidos

o mar crescia algum tipo
de angústia no oeste do peito

as palavras inelutáveis se desfarelam profusas
enxergo as sílabas se despedindo:
do conforto de algum cosmo estirado na placenta
é porque me deserto e a maré é uma criatura de segredos
o oceano não é nada mais que uma estampa
incrustada neste corpo viril, invadida neste enigma ilúcido

:: o interstício das águas sereias só são plumas

tratará de uns poucos fios ligados aos ventos
esta língua labiríntica que procura amena
o sabor dos tambores em ruelas estreitas

um sorriso é só
embriagamento
e mais nada

tem isto de transcendente nesta terra:
bananeiras, coqueiragens
miragens de outrora e indígenas
que destecem a certeza da vida
e confirmam que estes passos não são desvendados
porém amigos, íntimos, reencontrados


é angustiante ser tão meu
em lugares em que todo mundo
é tão de todo mundo

me sento num canto
e imagino o que eu poderia ser
e não sou


Three Boys at Lake Tanganyka, de Martin Munkacsi.

por muito tempo em minha vida curta
tive verdades essenciais como desconhecidas
os meus olhos o meu cabelo a minha face:
a minha face toda voltada para mim nas antemanhãs
por muito tempo também tenho perguntado o que
é a verdade, meu deus, o que é ou com o que
se parece este candelabro enigmático
o meu choro o meu sorriso a minha raiva
a minha carne o meu corpo: e depois
vieram as palavras

durante a minha infância eu vi os anos de luzes
eu vivi os anos de luzes pelos feixes das árvores
tinha as frutas pelo chão o céu…


o tempo é este deus difuso que traz
e leva, apascenta, cura, cicatriza
o tempo sopra forte nos dias tristes
a memória, as lembranças, as fotografias
o tempo transpassa os furos da nossa casa
que é o nosso forte, acalento, aconchego
e como feixes de luz permanece ali
estático, como se dizendo alguma coisa
algum segredo, silencioso

alberto de lima

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]

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