Three Boys at Lake Tanganyka, de Martin Munkacsi.

por muito tempo em minha vida curta
tive verdades essenciais como desconhecidas
os meus olhos o meu cabelo a minha face:
a minha face toda voltada para mim nas antemanhãs
por muito tempo também tenho perguntado o que
é a verdade, meu deus, o que é ou com o que
se parece este candelabro enigmático
o meu choro o meu sorriso a minha raiva
a minha carne o meu corpo: e depois
vieram as palavras

durante a minha infância eu vi os anos de luzes
eu vivi os anos de luzes pelos feixes das árvores
tinha as frutas pelo chão o céu azul as folhas
tão verdes como o poema que vai crescendo
os meus pés no barro as minhas mãos sujas
o grito puro de meus amigos
e o meu irmão
e por muito tempo durante o auge das tardes
procurávamos algumas malícias no corpo do outro
o beijo a minha boca os lábios da gente
e ficávamos assim debaixo dos cantares
dos passarinhos e das acerolas que caíam silenciosas
sobre os nossos pés esperando esperando

se deu tanto tempo até que eu voltasse
pelo fio de minha memória para que eu conhecesse
a verdade a minha verdade
só foi muito depois das distâncias que as coisas possuem
que eu toquei na palavra que eu a conheci
e foi por indo através dela por dentro dela
que eu fui me vendo os meus passos o meu rosto
pela estampa do tempo os meus olhos a minha carne
vi que de há muito eu havia descoberto a linguagem
dos corpos e o interesse da carne
e pela palavra fui abrindo o cerne para redescobrir
a essência dessa linguagem primordial

por muito tempo depois de me sentar com a palavra
eu me fui redescobrindo o meu corpo
os meus movimentos e a minha memória
da carne muito antes da memória do verbo

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]