arte por anastasia

estagnado me perpetuo no tempo que já não existe
estou num êxtase puríssimo do meu estado no tempo:
um conhecimento profundo acerca

é dezembro e a fotossíntese sou eu
no meu sofá esburacado
com as pernas escancaradas para o nada
na minha varanda tem um jardim grandioso: botânica morta
o tempo não existe e o meu jardim continua vivo
eu não tenho uma varanda, mas herdei um terraço
engenhosamente enorme cheio de algodão

do que adianta a palavra, se a boca é suja, é podre e mente
a alma é esta goiaba podre no chão
da barraca de frutas do seu manoel
cheia de moscas, tapurus, é esta alma no chão
da barraca de frutas do seu manoel
dona joana, a coitada, ouvindo o filho
retorquir que maconha é remédio
“meu medo nem é este, seu cândido
meu medo é ver esse menino traficando
porcarias nas portas das favelas”
dona joana, a coitada, sua a testa na av. boa viagem
num apartamento chiquíssimo e diz bem conformada
que a vida é boa da gente dali, mas daqui é que ela gosta mesmo:
do pé de manga dela que dá saguim até umas horas

no portão da minha casa tem cupim
porque o portão é de ferro e dá ferrugem
tem dia que chove e benedito pousa um braço no muro
e o outro segura o guarda-chuva
que é pra sentir a terra sentindo a água que cai
benedito gosta mesmo é do cheiro de terra molhada
diz ele que lembra carnaval
e nem fevereiro é

nos meus dezoito anos ia eu na padaria
da esquina da rua barbosa
ia eu nos meus dezoito anos
comprar dois e cinquenta de pão francês
porque assim tinha proferido a minha vó
“dois e cinquenta é muito, dois é suficiente”
eu havia pensado e dito alto
assim mesmo comprei eu dois e cinquenta
de pão francês na padaria
da esquina da rua barbosa
no dia seguinte acordei a procurar um pão francês
na sacola pendurada na prateleira de panelas
“disse tu que era muito dois e cinquenta
e não há mais nada”
naquele dia eu cri que sabedoria de vó
é primordial

correndo me punha em qualquer lugar
para que qualquer lugar
fosse qualquer benefício
só que amanhã estarei eu num estado
supremo de êxtase, estatelado no tempo:
o tempo já não existe mais
e amanhã será dia de descansar por hoje

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]