I

deveria existir uma palavra
uma única palavra de verbo e pedra:
espiritualizada, demoniada, preenchida
de toda a matéria do mundo
para definir o poema: esta divindade sangrenta
esta catarata de sílabas

deveria existir uma palavra, somente uma
grandiosa, poderosa
que distinguisse o homem comum do poeta
este ser perturbado por imagens
dalguma dimensão alta, feita de água e espuma [líquida]

então eu me questiono por quê
por que fui atingido pelo tangente feitiço da palavra:
serei eu um cúmplice do demônio
rastejando-me por qualquer beco de grito
suja foda, fome?
ou um ser de luz na costura do mundo?
um ser de deus, água e céu
azul, límpido, sereno?

por vezes, aterroriza-me o fardo da palavra
pesada, com cinco ou cem mil demônios
por vezes, ponho-a em meu colo
e a ouço com a calma da eternidade:
juntos falamos de uma magia além dos mares
palavra-céu de cores múltiplas [mirabolante arrebol]

II

quem tem uma amizade com a palavra
um elo assim de sussurro e de grito
enxerga mais atento o sofrimento humano
e mergulha nas águas profundas de lugar algum
um lugar de segredo: enigma

III

eu queria contar algo assim perfeito
da junção perene dalguma coisa
noutra coisa
como duas faces que se encostam
dois lábios, dois corpos
porque é a função da minha palavra:
encosto-a com essa calma maternal sobre as coisas
e converso qualquer tipo ameno de segredo

certamente, eu queria falar de como as coisas
se abrem para a minha palavra:
demônio de luz, exótico aroma

mas as coisas encostadas são fortes demais
que nem a palavra encostada na palavra
sabe dizer sobre essa força voraz

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ ]

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]