Arte por Grazyna Smalej

te via por horas a pino, sorrindo não sei
exatamente de quê para o sol frio
de um ocaso melancólico
ao menos para mim, o sorriso meu é uma mão defunta
numa tentativa inalcançável de apalpar
uma candice qualquer em alguma terra distante
e tu falava algo assim de felicidade que o teu sorriso
repercutia no vento, até mim, como um monstro ressonante
sobressaltado sobre os meus cílios, cada vez grandioso
apertando o resto de um coração noturno

foi naquele fim de tudo quando o céu
queria jogar algum tipo de fliperama conosco
e eu só dizia não, por favor, acabe com tudo isso
lembra daquela noite de onde meu olhar era algo assim
assemelhado ao de um deus, como tu mesmo dizia
e as pessoas ao redor eram brilhantes espectros galáticos
nos dando algum tipo de energia solar?
sim, sim, o extraordinário dia do peito a peito, boca a boca

o que dirão as espumas das águas na última caminhada da brisa?
profundo é o que de tanto tem essa ideia
um afogamento ou deveras um milagre enigmático
persistiriam os dedos em algum sonho de voo
e os coqueiros em chamas de vertigem
traçariam uma viagem nas encostas do mundo

só não podia destecer inconveniente os momentos bonitos:
faremos um arquivo pessoal a dois, só para nós dois
e isto costurarão no corpo do tempo para ficar em história
incrível longa história, tu queria
decerto um sereno pássaro azul se aninhava em minha boca
se espalhando aos tons outros da carne:
olhos, peitos, costas, pernas

quando vi, eram só pios de eternidade derramados
as palavras saíam como mágicas criaturas
em algum sul de um momento que era aquele
o é hoje assim aqui, metamorfose, possuído, demônio de luz
encarnado no verbo e na sílaba toda e num poema de morte: vívido

naquela tarde foram, no entanto, tantas tristezas
de uma cólera alojada que me fizeram entender
o movimento oculto das ondas
tu estava como um anjo único
contando as pequenas criaturas do céu
tão vivas que àquele momento já se faziam gritar
um grito puro de infância

e eu vi
sim, não há dúvida
que flutuasse
eu vi
era algo de prenúncio
uma grande catequese
talvez uma brisa pérfida
um mar revolto
e um dilúvio tempestuoso

estão sorrindo as palavras como se enlabuzadas
as cortinas numa brincadeira engenhosa escapam as luzes
o piso se estende como um rio quente
e o nosso barco é uma fonte de sussurros conversando as sereias
como adornos elas volteiam o nosso ventre
extinguindo um tipo qualquer de perigo distante

tua mão já era um menino prostrado no inferno
um tumor, uma angústia
te disse me espera, quando o ocaso se fez
depois de um último toque em lábios teus
que vou mergulhar

daqui, vejo teu sorriso ecoando e eu juro
meu amado eu juro
que nunca vi matéria tão bonita

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]