arte por Minh Dam

nesses tempos corriqueiros, afazeres forçados
sorrisos amostrados, se faz simpatia momentânea
coisas que afugentam gente doída
umas mesinhas de bar e umas latas de cerveja
quando não se é com quem se quer que seja
acaba em peça de teatro
mas em conversas paralelas há algo de proveito
que merece atenção despretensiosa
banalidades pessoais, alguns ticos
de sofrimentos para o lado do sensível
conversa que maltrata o peito
e permite lágrimas matutinas

pude notar na véspera, envolto de gente do bem
aroma da juventude, gritaria
sentado num canto rindo à toa
a sanidade já cambaleando
consequência de poucos copos nas mãos
teu sorriso num retrato perfeito:
tradicionalismo das artes plásticas
eu voltei no tempo
sentado noutro canto da alforria
tu compartilhava ao ar uns sorrisos bonitos
e uns piscares de olhos já pouco lentos

quanto tempo não te observava, discreto
com copo descartável entre os dentes, eu não lembro
meses se seguiram depois do último carnaval
efervescência dos calores encontrados
já tem tanto do tempo…
sinto muito pelas distâncias e pelos desencontros
esses universos particulares que nunca
se chocaram antes me causam agonia
poderia, por horas, naquela quina de parede
onde tu te encontrava, te reparar a tal ponto
de te levar pra um lugar que fosse só meu
eu gosto de olhar assim, de longe
te dou uns poderes emblemáticos, volto décadas
e mais décadas só pra ter o prazer da imaginação
de enfrentar o mundo ao teu encalço
figurar nossos enlaces, apalpares de mãos
fissurar teus olhos deliberados…

o dia, porém, insistiu nos primeiros raios solares
roupas úmidas de madrugada que embola
hora da despedida
te vi rápido, mais precisamente o teu sorriso
retrato último que carreguei debaixo dos braços

nas insônias que me acompanham
boto crença no encolhimento do universo
esperando que, num dia próspero
tu colida em minha alma

eis o pandemônio duma mente devorando prudências. [ instagram.com/poxaberto ]